Um episódio marcado por desentendimentos prolongados entre vizinhos terminou de forma devastadora no município de Nonoai, localizado na região norte do Rio Grande do Sul. A cidade, conhecida pela rotina tranquila e pelo forte senso de comunidade, foi surpreendida por um crime que resultou na morte de uma criança de apenas 10 anos, na tarde da última segunda-feira, 12 de janeiro.
De acordo com informações confirmadas pela Polícia Civil, a criança estava dentro de casa quando ouviu uma confusão na rua e decidiu verificar o que estava acontecendo. Nesse momento, acabou sendo atingida por um disparo de arma de fogo. Ela ainda foi socorrida e encaminhada para atendimento médico, mas não resistiu pouco tempo depois.
As investigações apontam que o caso não foi um episódio isolado, mas o desfecho trágico de uma rivalidade antiga entre famílias vizinhas, que vinha se arrastando há meses. O conflito teria se intensificado no ano anterior, quando o padrasto da criança realizou disparos contra uma rampa de lavação pertencente ao homem que hoje é apontado como principal suspeito do crime.
Segundo relatos colhidos pela polícia, o centro da disputa era o uso de um relógio de energia elétrica instalado na residência do padrasto da vítima. O equipamento estaria sendo compartilhado entre os vizinhos, situação que gerou desentendimentos após o padrasto manifestar o desejo de não dividir mais o fornecimento. A partir daí, discussões frequentes, ameaças verbais e episódios de hostilidade passaram a fazer parte da rotina no local.
No dia do crime, a tensão voltou a se intensificar logo nas primeiras horas da manhã, quando o suspeito e o padrasto da criança se encontraram e discutiram novamente. Testemunhas relataram que o clima já era de grande nervosismo ao longo do dia.
Horas depois, um conhecido do suspeito, que aparentava estar sob efeito de álcool e portava um facão, passou a causar tumulto na via pública. Diante da situação, o suspeito e um inquilino decidiram intervir. O padrasto da criança também tentou conter o episódio, o que acabou agravando ainda mais o confronto.
Nesse contexto de confusão, o suspeito sacou uma arma de fogo com a intenção de atingir o padrasto. Durante os disparos, a criança acabou sendo atingida, em um desfecho que chocou a comunidade local e deixou familiares, vizinhos e autoridades profundamente abalados.
Após o ocorrido, o autor fugiu do local e atravessou a divisa estadual, seguindo para Santa Catarina. A prisão foi realizada no município de Chapecó, graças a uma ação integrada entre a Polícia Civil do Rio Grande do Sul, a Brigada Militar e a Polícia Militar catarinense. A operação interestadual permitiu a rápida localização e captura do suspeito.
O delegado responsável pelo caso informou que o homem responderá por homicídio doloso, uma vez que ficou caracterizada a intenção de matar o padrasto da vítima, ainda que o disparo tenha atingido outra pessoa. A arma utilizada no crime ainda não foi localizada, e, segundo as autoridades, o suspeito não possuía registro nem autorização legal para portar arma de fogo.
As investigações continuam em andamento para esclarecer todos os detalhes da dinâmica do crime e verificar se houve a participação de terceiros. A polícia também apura se outras infrações foram cometidas ao longo do histórico de conflitos entre os envolvidos.
A morte da criança causou profunda comoção em Nonoai, onde moradores expressaram tristeza, indignação e preocupação com a escalada de conflitos pessoais que, quando não resolvidos, podem ter consequências irreversíveis. O caso reacendeu o debate sobre a importância da mediação de conflitos, do controle de armas e da atuação preventiva do poder público em disputas comunitárias.
Enquanto a cidade tenta lidar com o impacto da perda, familiares e amigos buscam forças para enfrentar um luto que, segundo moradores, poderia ter sido evitado se as tensões anteriores tivessem sido resolvidas de forma pacífica.