O uso crescente de medicamentos conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” passou a chamar a atenção das autoridades de saúde no Brasil após o registro de notificações relacionadas a possíveis efeitos adversos graves. Dados divulgados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) indicam que, entre os anos de 2020 e 2025, foram registradas seis ocorrências fatais suspeitas e ao menos 145 casos suspeitos de pancreatite associados ao uso desses medicamentos no país.
As informações constam no VigiMed, sistema oficial utilizado pela Anvisa para receber notificações de eventos adversos relacionados a medicamentos e vacinas. Os registros envolvem ocorrências nos estados de São Paulo, Paraná, Bahia e também no Distrito Federal, refletindo a ampla disseminação do uso desses produtos em diferentes regiões do Brasil.
Segundo a Anvisa, é importante destacar que os casos registrados no sistema não podem ser considerados conclusivos. As notificações são classificadas como suspeitas, ou seja, indicam uma possível associação temporal entre o uso do medicamento e o evento adverso, mas não estabelecem, por si só, uma relação direta de causa e efeito. A confirmação depende de análises clínicas mais aprofundadas e da avaliação de múltiplos fatores de saúde do paciente.
No entanto, quando considerados também dados provenientes de estudos clínicos e pesquisas científicas, o número total de registros de pancreatite associados a esse grupo de medicamentos pode chegar a 225 ocorrências, segundo estimativas citadas pela própria agência reguladora.
Os casos estão relacionados a medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e que, nos últimos anos, passaram a ser prescritos também com finalidade de controle de peso. Entre os princípios ativos mencionados estão semaglutida, tirzepatida, dulaglutida, liraglutida e lixisenatida.
No sistema de notificações da Anvisa aparecem nomes comerciais bastante conhecidos do público, como Wegovy, Ozempic, Saxenda, Victoza, Trulicity, Rybelsus, Mounjaro e Xultophy, entre outros. A agência reforça que a possibilidade de eventos adversos, incluindo a inflamação pancreática, já está descrita nas bulas desses medicamentos aprovados para uso no Brasil.
Diante do aumento das notificações e da popularização do uso sem acompanhamento adequado, a Anvisa adotou medidas regulatórias. Em abril de 2025, passou a ser obrigatória a retenção da receita médica para a venda das chamadas canetas emagrecedoras em farmácias e drogarias. A decisão teve como objetivo reforçar o uso racional desses medicamentos e evitar a automedicação.
Especialistas alertam que, apesar dos benefícios comprovados para determinados perfis de pacientes, esses medicamentos devem ser utilizados apenas sob orientação médica, com acompanhamento regular e avaliação criteriosa dos riscos e benefícios. A Anvisa segue monitorando os registros e reforça a importância da notificação de qualquer evento adverso por profissionais de saúde e pacientes.